O destino do Sol e a influência secreta de Marte no nosso clima

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É uma dúvida muito comum quando olhamos para o céu: será que o Sol corre o risco de explodir de uma hora para outra? Para o alívio de todos, a resposta é não. Esse tipo de evento catastrófico e repentino não faz parte do futuro da nossa estrela. Segundo Thaísa Storchi Bergmann, astrônoma da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explosões estelares violentas são exclusividade de astros muito mais pesados, com massa entre cinco e dez vezes maior que a do Sol.

Mas isso não significa que o Sol ficará igual para sempre. Estrelas como a nossa têm uma morte mais lenta e gradual. Daqui a alguns bilhões de anos, ele começará a expandir suas camadas externas de forma impressionante. Thaísa explica que esse crescimento será tão vasto que a atmosfera solar se estenderá aproximadamente até a órbita de Marte.

De Gigante Vermelha a Anã Branca

Nessa fase de expansão, o Sol se transformará no que os cientistas chamam de “gigante vermelha”. Infelizmente, a vida na Terra já terá desaparecido muito antes disso, pois o aumento drástico de temperatura tornará o planeta inabitável. Depois desse período inchado, o Sol perderá suas camadas externas, criando uma nebulosa planetária. O que sobrar no centro será um núcleo extremamente denso e compacto: uma “anã branca”. Essa estrela final terá a massa do Sol espremida num tamanho parecido com o da Terra. Ou seja, nada de supernovas explosivas; nosso astro-rei vai se apagar aos poucos.

O vizinho que mexe com o nosso clima

Curiosamente, enquanto a órbita de Marte marca o limite da futura expansão solar, o Planeta Vermelho já exerce uma influência surpreendente sobre nós hoje. Uma nova pesquisa revelou que Marte, mesmo tendo apenas metade do tamanho da Terra e um décimo da nossa massa, afeta diretamente o nosso clima. E olha que, no ponto mais próximo de sua órbita, ele ainda está a dezenas de milhões de quilômetros de distância.

Assim como a Lua puxa os oceanos e cria as marés, a gravidade de Marte dá pequenos “puxões” na Terra. Stephen Kane, professor de astrofísica planetária da Universidade da Califórnia, liderou um estudo para entender melhor essa relação. Ele admite que iniciou o projeto para checar suas próprias suposições: “Eu sabia que Marte tinha algum efeito na Terra, mas imaginava que fosse minúsculo, difícil de observar na história geológica”, conta o professor.

Para tirar a prova, Kane usou simulações complexas de computador sobre o comportamento do sistema solar. O foco era entender as variações de longo prazo na órbita e na inclinação da Terra, fatores que definem como a luz solar chega à nossa superfície ao longo de milhares de anos.

As Eras do Gelo e os Ciclos de Milankovitch

Essas mudanças de posição e órbita são conhecidas como ciclos de Milankovitch e são a chave para entender quando as eras do gelo começam e terminam. Uma era do gelo é um longo período em que o planeta mantém capas de gelo permanentes nos polos. Ao longo de 4,5 bilhões de anos, a Terra passou por cinco ou seis grandes eras glaciais. Atualmente, vivemos na Era do Gelo do Quaternário, que começou há 2,6 milhões de anos. Dentro desses períodos longos, o gelo avança e recua em ciclos menores.

Foi justamente aí que a equipe de pesquisa encontrou a “digital” de Marte. Os modelos mostraram que a gravidade marciana interfere nesses ciclos climáticos da Terra, especificamente em períodos que duram cerca de 100 mil anos e outros ainda mais longos, de 2,3 milhões de anos. Portanto, a dinâmica do sistema solar é muito mais conectada do que parece: enquanto o Sol define nosso destino final num futuro distante, o pequeno Marte ajuda a ditar o ritmo do frio e do calor na Terra agora mesmo.