O valor das Ciências Humanas e o futuro do trabalho na era da inteligência artificial

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Muitas instituições de ensino e estudantes acreditam que o foco exclusivo em programas voltados para a inteligência artificial seja o único caminho seguro para a estabilidade profissional. Talvez eles estejam tirando a lição errada sobre como a tecnologia está transformando o mercado de trabalho. Programas estritamente direcionados para a formação técnica costumam presumir, de maneira bastante equivocada, que as habilidades úteis hoje continuarão sendo amanhã. Na realidade, a rápida ascensão da inteligência artificial tende a tornar competências puramente operacionais menos valiosas, enquanto o julgamento humano se torna absolutamente indispensável. Greg Weiner, professor de ciência política e presidente da Assumption University, destaca justamente essa ironia: a melhor educação para o sucesso futuro pode surpreender muita gente. Nunca houve um momento com argumentos tão fortes a favor da formação em humanidades, um tipo de educação focado em cultivar o discernimento e a capacidade analítica.

A essência e os pilares das Humanidades

É exatamente nesse cenário de constantes transformações tecnológicas que as Ciências Humanas ganham ainda mais força. A área, que engloba um amplo grupo de conhecimentos e estudos, tem o próprio ser humano como foco central. Ela investiga a nossa produção cultural, criativa e intelectual, unindo teorias e aplicações práticas das nossas subjetividades. Os alicerces desse campo se apoiam em três pilares fundamentais. A Filosofia analisa o homem e a sociedade na qual ele está inserido; a Comunicação investiga as formas como a humanidade interage e troca informações; e a Arte se dedica ao estudo das mais diversas expressões estéticas criadas ao longo da história.

As fronteiras do conhecimento

Diferente das Ciências Exatas, que se baseiam no estudo da matemática, da física e da química para entregar resultados exatos por meio de fórmulas pré-estabelecidas, as Ciências Humanas são puramente interpretativas. Trata-se de um campo subjetivo. Uma mesma pergunta nunca possui apenas uma resposta engessada. Já as Ciências Biológicas focam no estudo da natureza e de suas leis, abrangendo disciplinas como genética, botânica, zoologia, ecologia, farmacologia e bioquímica para entender o comportamento dos seres vivos. Existe ainda uma confusão muito frequente entre as Ciências Humanas e as Sociais. Apesar da semelhança nos nomes, elas possuem abordagens distintas. Enquanto as Humanidades olham para a produção, os pensamentos e as relações dos indivíduos de forma ampla, as Ciências Sociais concentram-se na compreensão das diferenças e nas estruturas que moldam a nossa vivência em sociedade.

O caminho acadêmico e o perfil do estudante

O aluno que se interessa por história, geografia, filosofia e sociologia costuma ter grande afinidade com esse universo. O perfil de quem segue esse caminho geralmente envolve o gosto pela leitura e uma curiosidade natural para observar o mundo ao redor, tentando decifrar comportamentos e entender a nossa bagagem histórica. Qualquer pessoa disposta a aprender e a desenvolver seu senso crítico pode ingressar na área, deixando de lado velhos estereótipos acadêmicos. No Brasil, o acesso às graduações em universidades públicas e particulares ocorre majoritariamente pelo Enem ou por vestibulares próprios. Os cursos superiores dividem-se em bacharelado e licenciatura, que exigem no mínimo quatro anos de dedicação, além das formações para tecnólogo, que duram de dois a três anos. Cursos livres e técnicos também são opções viáveis. A grade curricular costuma ser bastante densa. Uma forte carga de matérias teóricas exige do aluno uma excelente capacidade de interpretação de texto para absorver os conceitos complexos exigidos pela profissão.

De carreiras tradicionais às profissões do futuro

A educação superior brasileira oferece uma variedade imensa de áreas de estudo dentro desse guarda-chuva. O leque abrange graduações como Administração Pública, Antropologia, Arqueologia, Arquivologia, Biblioteconomia, Ciências Contábeis, Ciências Políticas e Direito. O campo criativo e artístico é igualmente vasto, contando com Artes Cênicas, Visuais, Plásticas, Cinema, Dança, Música, Escultura e Teatro. Há ainda os cursos focados em negócios, serviços e comunicação, como Jornalismo, Publicidade, Relações Internacionais, Comércio Exterior, Gastronomia, Moda, Turismo e Hotelaria, Gestão Ambiental, Pedagogia, Gerontologia, Letras e Serviço Social.

A aplicação prática de todo esse conhecimento no mercado de trabalho vai muito além da advocacia ou das salas de aula. Profissionais de humanas estão assumindo posições estratégicas na própria indústria de tecnologia. Especialistas em experiência do usuário (UX), experiência do consumidor (CX) e gestores de sustentabilidade, por exemplo, representam os chamados trabalhos do futuro e são destinados a pessoas com essa formação. O mercado corporativo procura talentos que consigam traduzir complexidades humanas para ambientes digitais. A remuneração costuma ser um peso enorme no momento de decidir uma profissão. Os salários iniciais variam bastante dependendo da escolha profissional, mas a flexibilidade e a profundidade analítica de quem estuda as humanidades abrem portas para oportunidades de alto nível financeiro na economia atual.