O Fio da Navalha Social: Do Descarte na Velhice ao Funil da Educação Global

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A redação do Enem está longe de ser apenas um amontoado de 30 linhas para testar a gramática da garotada; ela é uma verdadeira lupa sobre as nossas fraturas sociais. Quem encara a prova sabe que a jogada ali é construir uma tese firme, argumentar com consistência e, no apagar das luzes, bolar uma proposta de intervenção para os pepinos do país. O peso disso é brutal, batendo a casa dos 1.000 pontos. Tirar zero significa dar adeus ao ingresso nas universidades e jogar pela janela a chance de conseguir uma bolsa de estudos ou um intercâmbio. Mas, para além da peneira acadêmica, o exame nos obriga a ligar o radar para como o nosso sistema mastiga e cospe quem está nas margens, seja no fim da linha da vida produtiva ou na largada pela busca de conhecimento.

Pega a questão do envelhecimento, por exemplo. O filme “O Senhor Estagiário” joga luz exatamente sobre isso ao mostrar um homem de 70 anos ralando para voltar ao mercado de trabalho, esbarrando em um muro de preconceitos só por causa da certidão de nascimento. Essa ficção é, na real, o roteiro diário de um mar de idosos brasileiros. A gente vive numa lógica capitalista que precifica a existência: o indivíduo só tem valor enquanto é uma máquina de produzir ou consumir. Quando a engrenagem desacelera, a sociedade simplesmente descarta. E a ironia cruel é que muitos idosos, mesmo com a aposentadoria no bolso, precisam continuar no corre para pagar as contas básicas e os cuidados médicos. Como são frequentemente vistos como lentos ou incapazes de acompanhar o ritmo frenético da tecnologia, acabam jogados para escanteio e marginalizados por um viés puramente financeiro.

Essa mentalidade de transformar gente em produto alimenta uma verdadeira idolatria à juventude. A máquina midiática e o mercado de estética empurram goela abaixo a ideia de que sucesso é sinônimo de pele esticada e vigor infinito. É um bombardeio de propagandas vendendo a salvação em sessões de botox, harmonização facial, peeling e tinturas de cabelo. Tudo para apagar qualquer rastro de envelhecimento, como se ficar velho fosse um defeito a ser corrigido, erguendo barreiras psicológicas e sociais imensas para quem está só seguindo o curso natural da vida.

Como já cravou o escritor Chateaubriand, a velhice, que antes era sinônimo de dignidade, hoje virou um peso. Essa pedrada ilustra bem como parte do Brasil enxerga seus sêniores: um estorvo para as famílias e um rombo nos cofres do poder público. Papel aceita tudo, e a Constituição de 1988, lá no seu artigo 230, até jura que o Estado tem o dever de amparar a pessoa idosa. Na prática, a conversa é outra. Quem mora na periferia e sofre com diabetes ou outras doenças crônicas amarga nas filas do SUS, que ainda pena para entender as necessidades dessa galera. O Estadão, inclusive, publicou um levantamento mostrando um buraco de 28 mil médicos geriatras no país. Com o sistema estrangulado, os mais velhos ficam a ver navios na hora de marcar consultas, o que compromete totalmente o cuidado com a saúde.

E se o sistema vira as costas para quem já entregou uma vida inteira de trabalho, a porta de entrada para o futuro da juventude também é um funil crivado de desigualdades. Enquanto a gente discute o direito de envelhecer com saúde, o cenário do ensino superior global mostra que a tal corrida pelas oportunidades é tudo, menos justa. O mais recente relatório de tendências da UNESCO aponta que o número de universitários mais que dobrou nas últimas duas décadas, saltando de uns 100 milhões em 2000 para impressionantes 269 milhões em 2024. Isso significa que cerca de 43% do pessoal na faixa dos 18 aos 24 anos está na faculdade. Mas esses números gordos mascaram abismos gigantescos.

Enquanto a Europa Ocidental e a América do Norte têm 80% dos seus jovens matriculados, lá na África Subsaariana o índice despenca para minguados 9%. A América Latina e o Caribe ficam no meio do caminho, com 59%. O detalhe é que a educação privada tomou conta de boa parte desse jogo. Na nossa região latina, quase metade das matrículas são na rede particular. Em países como Brasil, Chile, Japão e Coreia do Sul, quatro em cada cinco estudantes pagam para esquentar a cadeira, o que faz sentido quando a gente percebe que só um terço dos países pelo mundo garante o ensino superior gratuito por lei. E entrar é uma coisa; sair com o diploma na mão é outra história. A taxa global de quem realmente consegue se formar subiu a passos de tartaruga, indo de apenas 22% em 2013 para 27% hoje.

A cara dessa massa estudantil também mudou. As mulheres viraram o jogo e agora são maioria — globalmente, são 114 universitárias para cada 100 homens —, embora ainda deem de cara com um teto de vidro quando o assunto é o doutorado ou os cargos de chefia no mundo acadêmico. A galera que vai estudar fora também triplicou, chegando a 7,3 milhões, mas essa mobilidade chique atinge só 3% dos estudantes globais. A maior parte ainda corre para os suspeitos de sempre no Norte ou para polos emergentes como os Emirados Árabes. No meio disso tudo, os refugiados continuam comendo o pão que o diabo amassou. Apesar da presença deles nas faculdades ter pulado de 1% para 9% em poucos anos, a burocracia para validar diplomas perdidos nas fugas ainda é infernal, uma trava que a UNESCO tenta afrouxar com iniciativas como o Passaporte de Qualificações.

No fim do dia, seja lutando por uma consulta médica digna aos 70 anos ou tentando bancar a mensalidade da faculdade aos 20, o cobertor do investimento público é curto em todos os cantos. Com governos injetando uma média global de apenas 0,8% do PIB no ensino superior e a saúde sufocada pela falta de médicos, a corda sempre arrebenta para quem tem menos força. É exatamente por isso que o Enem bota tanta pressão na tal proposta de solução. Diagnosticar que a economia descarta o idoso e a educação ainda segrega o jovem é só a metade do caminho; a bronca de verdade é descobrir como consertar essa máquina antes que ela engula o resto de nós.